O caminho da Verdade

A verdade, as particulares verdades que causam morte e vida, são apenas um estágio vacilante entre a percepção e a realidade. Essas meia-verdades, quanto mais se tentam aprofundar e se legitimar, mais se afetam pelo aparato de percepção, e mais se afastam da realidade… Concordo, em parte, com os simplistas: “tudo é questão de interpretação. verdade mesmo não há…”.

Epígrafes

1) A “ignorância” é incompetente pra causar o mal total, mas o “meio-conhecimento” pode fazê-lo por inteiro, sem ser nada melhor. Portanto, mais vale um ignorante humilde do que um sabido petulante.

2) Persigo o poder. De modo sutil. Cada gesto meu postula o poder. É um poder de espécie que os ignorantes e meio-conhecedores tenderão a interpretar afoitamente, mas não sei se conseguirão. Submeto-me, no entanto, à autofiscalização cruel do meu humanismo, pois, a todo tempo me pergunto e me pressiono: “o poder para quê?”. E busco nos sinais dos poderosos do mundo a resposta também: “para que o poder?”… e entendo que mesmo o indigente da calçada possui essa minha modalidade de “poder”. E pergunto mentalmente ao indigente: “o poder para quê?”

3) Não uso drogras por dois motivos a] no atual sistema social e de Direito, elas são são um “mal humano”, b] consigo me abstrair da realidade por meios naturais de condicionamento mental, leia-se: pensamento, reflexão, criação… || Mas não sou o careta de dizer que “não é boa a alucinação, a divagação, a contemplação proporcionada por certo estado psicológico, às vezes induzido quimicamente”… Afora isso, as únicas vertentes que me preocupam são as seqüelas orgânicas e comprtamentais. O mal do combate às drogas é a caretice de dizer que ela “é má”, num cenário humano degenerado, onde os homens não delimitam claro o que é “Bem” o que é “mal”. Grande parte desta culpa cabe à Religião, que luta secularmente contra o humanismo. Então tá: agora salvem esses pobres “animalizados” das drogas, com essas religiões egóticas e alienadas!

4) Quem muito lê empilha livros sobre a própria cabeça. É esse o “peso” que levo; de rastejar entre as entranhas do mundo, de sentir-me impotente diante dos fenômenos, e me exigir mais do que exijo aos “leves” – sem uma folha de papel na experiência. Li mais de quinhentos livros, mas isso não me imunizou contra a ignância própria, nem me impede de flexionar os joelhos diante de uma criança, olhar nos seus olhos e ouvir sua pura “sabedoria”; nem é difícil agora “cultuar” os idosos, como deuses de vícios antigos, de soberbas repisadas, mas que, sobretudo me passarão à mão a fração do mundo que me cabe melhorar.

5) A Verdade é coisa que, dita reiteradas vezes, continuamente perde o valor. Então só falo a verdade às pessoas certas, no momento certo, com finalidade certa, e com certas ponderações. No mais, também não minto! mas encarno esse personagem esquivoso – traje  que o baile de máscaras humano recomenda – que tem licença poética pra dizer meias verdades, muitas profecias, e algumas fanfarrices bem-intencionadas – porque não sou perfeito! Lá fora, não sou mais o “homem que me exerce”: sou o artista que me encena com artifícios da ciência fria: desilusões.

6) Mesmo a língua comum é traduzida para as formas particulares de entender… Essa coisa de falar na língua “dos anjos”, me parece alienante! Já está em tempo de Deus reverter a pena aplicada lá na “Torre de Babel”. Vejo que os homens se matam pois não entendem os sinais mais comuns da piedade e do amor – é preciso cultivar o entendimento humano, humanizando a visão das coisas. Lembro que instrumentamos um processo que requisitava o tratamento de um pé necrosado de uma menina, com fotos cruéis das feridas. Na reunião, o requerente exaltado esbravejou: “imagina se é o pé de um filho seu que está aí?!” Logo o tratamento foi autorizado. Aí a imagem serviu de língua universal… Se não nos entedemos na língua vernácula, e na fraternidade, quaisquer outras línguas são anti-humanas!

7) Meus “óculos” estão impregnados de minha própria maldade. Vejo no mundo a metade diluída dos vícios-em-si-mesmos, e outra parte degenerada de mim. Portanto, perdôo certos erros, que esse perdão também é meu…

s) Quem é o “Supremo Juiz do Mundo”? Esse doutor, se me quiser dar julgamento justo, será meu leitor assíduo. Ora, senão! Do contrário, como se aplicaria a Lei com Justiça, se se mantivesse alheio a tão vultuosas provas? Seria um demérito na carreira de qualquer magistrado!

9) O homem “chega a deus” por meio das própria perceptividade psicológica. Obviamente, alguns projetam no Altíssimo a mesquinhez que têm em si. Einstem, do contrário, encontrava a Grandeza na sua profunda racionalidade, por sua mente capaz de abranger muito do universo infinito, e desprovido de preconceitos. Não sou digno de ladear-me àquele gênio, mas posso dizer que vejo também ao lonje uma vaga silhueta; imagino seja o “Mono” (do monotéismo), mas está longe, Ele não se obriga a separar brigas, nem curar feridas, nem colocar zeros à direita de minhas somas… é uma penumbra no horizante de um agnóstico… mas, senhores, desculpe se os desaponto: aquela supremacia que esparsamente vejo não parece o vosso deus-portátil!

10) Bebo algumas bebidas alcoólicas de modo moderadíssimo, porque, raramenre aprecio-lhes o sabor, mas elas me são úteis no cultivo das relações interpessoais. Se minha mulher me batesse enquanto eu estivesse bêbado, eu jamais beberia. E faço sempre um cálculo mental descompromissado do potencial agressivo de certa miligramagem de álcool e dos referenciais calóricos. Há casos em que se deve ser prático. Só isso.

11) Não basta ser uma “poesia ambulante”, cheio de cuidados no cultivo de si mesmo… às vezes é necessário uma poetisa que nos “sinta”, que nos “reduza” à forma elegante da poesia… e que entenda as evasivas e controvésias de nossa ficção… Procurei uma mulher assim…

12) Há livros para se trazer às mãos o conjunto da vida, e outros para igualmente se “objetificar” e sentir na mente sórdida e nua a fragilidade e a morte. Nesse sentido existencial, a partir de certo ponto, a lucidêz é obscurante e enlouquecedora… Já me senti ruir no abismo do nihilismo, na leitura de “A Morte Voluntária no Japão”, de Maurice Pinguet. É o meu “livro maldito”, que nem aos inimigos da liberdade recomendo, pela minuciosidade de sua tortura literária, ultra-humana

13) Se um louco aparecer à minha frente dizendo-se deus, eu terei de reverenciá-lo; como, aliás, faço aos loucos que não aparentam loucura, aos “deuses” que se fingem humildes, e a todas as outras forças remotas e brutas da Natuteza. Então tranquilizo os teístas -aqueles que escolhem o quê divinizar e o quê demonizar. Digo que o deus de suas religiões já se inclui nas minhas reverências. Se deus “é tudo” e está “em tudo”, não lhe bastarão a pureza dedicada às crianças,  a devoção com os idosos, e o compromisso ético com a humanidade? Por que terei de segregar-lhe culto e ofertas, se o faço em auxílio aos doentes e em cuidados fraternos com a Terra-Mãe?! E, se as injustiças do mundo me infortunam, me insultam, culpo os mesmos homens que reverencio, a mesma natureza intrépida e cruel. Ademais, espero que os senhores teístas cobrem providências ao vosso deus – que de um certo modo, o meu humanismo louvou.

De volta do Mundo

Vejo cada vez mais o “ventre” do mundo, para dentro dos olhos, seu esqueleto, suas entranhas… com sua contra-lógica, suas disparidades, coisas que me constragem a humanidade. Sinto as dores do mundo, porque sou o mundo – certeza que obtive através da consternação psicológica e da reflexão. Cada vez mais me estarreço: os meninos não foram gerados para serem mortos aos 15, nem as meninas, para serem abusadas como meros objetos do consumo insano, sem se ater de que caminham na direção do abismo excludente. Cada vez mais meus gestos são catárticos, minhas falas são cheias de obstinação e piedade, em controverso; mas são as pedras com que fomento meus próprios caminhos… E vou quase só, tateando as pontas de dedos que se me estendem: meias mãos, meias palavras, meias humanidades… lanço gravetos nestas chamas frias que não queimam nada, não iluminam nada! Onde está o Homem?! Onde estão as Mulheres, que subverteram a antiga opressão em uma falsa forma de liberdade ainda mais sutilmente opressora?! Onde estão, que não levantam o clamor de seus filhos pobres, filhos aos quais se nega o futuro?! Vejo bruscamente a velocidade da História frear ante a curva do colapso: seremos cada vez mais “obrigados a assumir a liberdade”, e a fazer dela um distintivo da humanidade resisual em nós. Não podemos mais nos dar ao luxo da estética sem ética, do consumo antinatural, da opressão consentida… E sei que esse ar de desastre, antes de prenunciar o fim de tudo, é um impulso para a saída. Luto com toda pouca força que tenho, mas nunca me dirão covarde! Pois já reguei a árvore da vida no viés destas palavras!

¿Por que sinalizar previamente a interrogação?

Em 2006 escrevi um artigo para o boletim da Asfab, em que utilizei o sinal de interrogação normal e o de ponta-cabeça. Nem me lembro bem quem corrigiu o original, mas imagino que tenha sido a colega Cristina Pimentel, sempre zelosa com o uso da língua. Sei que o texto foi divulgado em vernáculo, sem esse gritante
“espanholismo”.

Mas, no blog, pretendo utilizar o “anzolzinho”. Enfim, eternamente o utilizarei, por razões “ideológicas” que parecerão óbvias a quem se despir de qualquer purismo. Admiro bastante, aliás, a liberdade expressiva que o meio virtual nos propôe.

Bem, e há sempre maneiras de amainar purismo, sendo mais profundos, pois se sabe que é de séculos antigos assinalar as frases interrogativas e exclamativas com sinais introdutório e final, pelo menos na Espanha, Portugal e França. Em Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, p. ex., nada é dito sobre o assunto, mas eis aqui uma análise empírica pessoal que faço do caso, sem maiores intenções.

Em defesa da expressividade dos sinais ¿ e ?

  • Há frases interrogativas não sinalizadas que alcançam bem maior ênfase interrogativa que as tipicamente sinalizadas. E isso ocorre justamente pela prévia noção discursiva, induzida por certos elementos. Por aí, parece uma antipraticidade esperar, às vezes, dezenas de termos, com seus subsentidos, até achar o sentido interrogativo sinalizado lá no final. Aliás, e por analogia, é por isso que as estradas têm curvas e não vértices: o ritmo da escrita precisa de uma curva “entonativa” que introduza e concluia toda a complexidade de sentido de uma fala, como um veículo deve “moldar-se” às leis da física vetorial. Imagine, descobrir, já aos 120 km/h, que daqui a vinte metros de uma via escura há uma “curvinha” de sessenta graus…
  • “Queria saber por que eles não vieram.” Não aparece ao senso comum, mas a marca gráfica desta interrogação é o “por que” assim, separado e sem o circunflexo. Pois então, aí o sentido é capaz de induzir efeitos morfológicos, ou vice-versa, embora o tempo verbal, que “distancia”, implique um “querer resposta” subjetivo, responsável pelo efeito mental de uma atmosfera inquisitiva.
  • A curva às vezes subitamente requerida pelo [?] ao final de um período faz com que vociferar a escrita alheia se torne um perigoso terreno de sinais dissimulados nas particularidades interpretativas entre o formulador, o orador e os receptores. Muitas vezes uma frase interrogativa longa permanece como uma desagradável afirmação, até que se entoe o desfecho.
  • ¿Quem nunca, ao final de um longo trecho, como este, não perdeu a meada e teve de reconstituí-lo mentalmente em sentido, ou relê-lo?

Ademais, admiro a metaliteratura de Flaubert, quando insta que o texto deve ser tão fluxível à mente quanto à fala, e que, se as frases, oralizadas, ao tino do autor não soarem bem, é prudente antever que tampouco ao entendimento alheio soarão.

Pequenas ações

O Rio são Francisco nasce a 1600 metros do n�vel do mar, percorre 2800 km, e convive com 12 milhões de pessoas em 5 estados.

O Rio são Francisco nasce a 1600 metros do nível do mar, percorre 2800 km, e convive com 12 milhões de pessoas em 5 estados.

Quem vê a abundante força de águas, capaz de entremear-se como divisa de dois povos, duas culturas, tão díspares, não imagina que lá, numa vala truncada de pedras, ecoando no silêncio de um vale, nasce o rio. Às vezes, brota discretamente de pequenos “olhos d’água”… Uma pequena força é capaz de mover a mais implacável engrenagem. Nas cidades, ouvem-se as roldanas e pás de moinhos, vê-se o viço das plantações e a higiene das paisagens: tudo no mundo depende daquele singelo filete nascente de água. Mesmo peso axerce o ser sobre a totalidade humana. Gestos, crenças e valores “pingam” eternamente, afluindo para o total que somos. O homem jamais deve se esquivar da responsabilidade social e humana, alegando a “insuficiência” de seus atos. Um dia o amor infantil estará somado à postura fraterna de todo o povo, um dia a voz mansa e severa da mãe estará refletida na paz do mundo inteiro. â–’

Beleza

â–’ Depois de uma adolescência em que colecionei milhares de fotos das femmes, de seguir apaixonadamente Emanuelle bèart, de 3.650 noitadas, de cursar nu artístico no IUB, de 14 namoros, de alguns amassos rodriguianos regados a feromônio e outras químicas, descobri certos atalhos para a alma feminina, que permitem captar, à distancia de 50 metros, o seu “aprouch”, o cheiro… Sei lá! A alma delas está na largura com que o sorriso expõe os dentes, no detalhe de apenas mais algumas fagulhas no olhar. Mulher boa, não é a “sumidade”. E que me perdoe Vinnicius. Adoro amar pessoas e coisas que, derrepente, são apenas do meu desejo – do meu discreto e escolado desejo. A “cama” é uma obsessão que causa um milhão de infelizes por fim de semana. Eu prefiro copular na mente. â–’

Como se diz, os olhos são as janelas da alma.

Como se diz, os olhos são as janelas da alma.

Já Dizia Einstein

Não são necessárias as formulações da fÃsica einsteniana pra ver nesta cena o quanto o tempo é relativo.

Não são necessárias as formulações da física einsteniana pra ver nesta cena o quanto o tempo é relativo.

â–’ O homem insiste em aplicar um ritmo artificial ao tempo, desvinculando o próprio ciclo biológico da pulsação da natureza. Quando ainda no campo se espera a semente ser erva, ser árvore, e a árvore dar seus frutos, no homem da “modernidade” – o homo faber – o tempo insufla com ansiedade e temores o coração, algo que no fundo é a própria expressão do esvaziamento interior. Vai-se num abissal processo, a “artificialização da necessidade”: tudo o que antes bastava, agora, é pouco. O meio ecológico está sendo exaurido pela ânsia consumista, sem que as pessoas percebam que seus sonhos já nascem realizados em si mesmas. As pessoas estranham quando me dirijo a um balcão e digo “preciso de uma água…” Ninguém ouve em si a voz da necessidade, de tanto que estão entorpecidas pelo querer insano. Elas dizem “quero”, “tenho”, e “é meu”… â–’

O Alicerce do Mundo

Esse silêncio está \

Esse silêncio está perguntando que mundo é este. - O que posso fazer para torná-lo menos truculento e cruel?

Não há amor mais puro do que aquele que se dedica às crianças, e a melhor forma de praticá-lo é educá-las de modo que venham a ser seres humanos melhores. Assim se pode contribuir para a construção de um mundo tão bom quanto desejamos. ▒

Pesca de Arrasto

Já participei de um \"lanço\" de 12 mil quilos de sardinha! E não é história de pescador.

Passei alguns anos da minha infância aí: pendurado nas tralhas de uma rede de arrasto. tenho meus ombros bastante distendidos e doloridos. Cansei de dormir às duas da manhã, aos catorze anos, depois de vir do arrasto, e de limpar o peixe, antes de colocá-lor na geladeira… Várias vezes levantei às quatro, pra tirar a rede de tresmalho… Sempre a colocávamos em bonança e colhíamos com a maresia mais pavorosa. Mas era emprestada, e precisávamos trazê-la de volta… A certa altura a vida me induziu a “pensar”, como fosse apenas um mecanismo que me libertaria de um caminho fatal… Nunca tive lucro por escapar de ser apenas um pescador, em tempos de uma pesca “falida”. O meu maior “ganho” é poder olhar “de fora” e poder entender quem fui, quem sou, e o que quero ser.

Num certo dia, quando já pescava somente por lazer, para “manter o costume”, observei um colega descarnado um baiacu. Ele arrancou o couro do animal ainda vivo. Fiquei impressionado, embora eu mesmo já houvesse feito algo parecido, como quando limpava o cação. Senti alguma coisa forte no peito… Depois disso perdi totalmente o que poderia ser um “prazer” de pescar.

Penso, no entanto, que tais atividades são meios ainda indispensáveis à sanidade física humana, e têm sua função na manutenção da cultura de várias comunidades. Ainda acho deliciosa uma enchova assada, mas receio matá-la eu mesmo. Talvez um dia a evolução tecnológica nos leve ao ponto de abstrairmos nutrientes alimentícios apenas de formas vivas primárias, como vegetais, que têm o aparelho neurosensível menos acurado, o que lhe torna menos suscetível à dor. Mas aquele atum… â–’

Casinha torta

â–’ Diz se não lembra a casinha de minha vó… Estuque moldado pelas mãos do vento, fixado pelo sol… Um teto tão acolhedor quanto o céu é para as aves. E os brutos derrubaram, arrancaram minha vó, e minha alma, daquele chão! Com o meu ódio eu perdôo aqueles malfeitores. Um perdão que deve doer, que deve fazer sangrar! Toda fúria que tenho em mim, toda sede obcessiva por justiça são fruto desses “casebres derrubados” pela ganância. Posso dizer que minha vida se construiu daquelas ruínas.

Casinha torta

Casinha torta