Passei alguns anos da minha infância aí: pendurado nas tralhas de uma rede de arrasto. tenho meus ombros bastante distendidos e doloridos. Cansei de dormir às duas da manhã, aos catorze anos, depois de vir do arrasto, e de limpar o peixe, antes de colocá-lor na geladeira… Várias vezes levantei às quatro, pra tirar a rede de tresmalho… Sempre a colocávamos em bonança e colhíamos com a maresia mais pavorosa. Mas era emprestada, e precisávamos trazê-la de volta… A certa altura a vida me induziu a “pensar”, como fosse apenas um mecanismo que me libertaria de um caminho fatal… Nunca tive lucro por escapar de ser apenas um pescador, em tempos de uma pesca “falida”. O meu maior “ganho” é poder olhar “de fora” e poder entender quem fui, quem sou, e o que quero ser.
Num certo dia, quando já pescava somente por lazer, para “manter o costume”, observei um colega descarnado um baiacu. Ele arrancou o couro do animal ainda vivo. Fiquei impressionado, embora eu mesmo já houvesse feito algo parecido, como quando limpava o cação. Senti alguma coisa forte no peito… Depois disso perdi totalmente o que poderia ser um “prazer” de pescar.
Penso, no entanto, que tais atividades são meios ainda indispensáveis à sanidade física humana, e têm sua função na manutenção da cultura de várias comunidades. Ainda acho deliciosa uma enchova assada, mas receio matá-la eu mesmo. Talvez um dia a evolução tecnológica nos leve ao ponto de abstrairmos nutrientes alimentícios apenas de formas vivas primárias, como vegetais, que têm o aparelho neurosensível menos acurado, o que lhe torna menos suscetível à dor. Mas aquele atum… ▒
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