Em 2006 escrevi um artigo para o boletim da Asfab, em que utilizei o sinal de interrogação normal e o de ponta-cabeça. Nem me lembro bem quem corrigiu o original, mas imagino que tenha sido a colega Cristina Pimentel, sempre zelosa com o uso da língua. Sei que o texto foi divulgado em vernáculo, sem esse gritante
“espanholismo”.
Mas, no blog, pretendo utilizar o “anzolzinho”. Enfim, eternamente o utilizarei, por razões “ideológicas” que parecerão óbvias a quem se despir de qualquer purismo. Admiro bastante, aliás, a liberdade expressiva que o meio virtual nos propôe.
Bem, e há sempre maneiras de amainar purismo, sendo mais profundos, pois se sabe que é de séculos antigos assinalar as frases interrogativas e exclamativas com sinais introdutório e final, pelo menos na Espanha, Portugal e França. Em Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, p. ex., nada é dito sobre o assunto, mas eis aqui uma análise empírica pessoal que faço do caso, sem maiores intenções.
Em defesa da expressividade dos sinais ¿ e ?
- Há frases interrogativas não sinalizadas que alcançam bem maior ênfase interrogativa que as tipicamente sinalizadas. E isso ocorre justamente pela prévia noção discursiva, induzida por certos elementos. Por aí, parece uma antipraticidade esperar, às vezes, dezenas de termos, com seus subsentidos, até achar o sentido interrogativo sinalizado lá no final. Aliás, e por analogia, é por isso que as estradas têm curvas e não vértices: o ritmo da escrita precisa de uma curva “entonativa” que introduza e concluia toda a complexidade de sentido de uma fala, como um veículo deve “moldar-se” às leis da física vetorial. Imagine, descobrir, já aos 120 km/h, que daqui a vinte metros de uma via escura há uma “curvinha” de sessenta graus…
- “Queria saber por que eles não vieram.” Não aparece ao senso comum, mas a marca gráfica desta interrogação é o “por que” assim, separado e sem o circunflexo. Pois então, aí o sentido é capaz de induzir efeitos morfológicos, ou vice-versa, embora o tempo verbal, que “distancia”, implique um “querer resposta” subjetivo, responsável pelo efeito mental de uma atmosfera inquisitiva.
- A curva às vezes subitamente requerida pelo [?] ao final de um período faz com que vociferar a escrita alheia se torne um perigoso terreno de sinais dissimulados nas particularidades interpretativas entre o formulador, o orador e os receptores. Muitas vezes uma frase interrogativa longa permanece como uma desagradável afirmação, até que se entoe o desfecho.
- ¿Quem nunca, ao final de um longo trecho, como este, não perdeu a meada e teve de reconstituí-lo mentalmente em sentido, ou relê-lo?
Ademais, admiro a metaliteratura de Flaubert, quando insta que o texto deve ser tão fluxível à mente quanto à fala, e que, se as frases, oralizadas, ao tino do autor não soarem bem, é prudente antever que tampouco ao entendimento alheio soarão.
Arquivado em: Notas Avulsas