6. Notas

Escrevo como quem fala ao espelho. Sou o sonhador que acredita na unidade essencial humana, esse é meu hemisfério oriental, como o que há em Huxley, Gibran e Freire. Teimo em acreditar que, harmonizando-me com a porção alheia que há em mim, falarei uma espécie de língua comum à toda humanidade, e que assim mesmo estarei sendo um revelador da verdade.Vê, se não somos todos profetas! Cada parte tendo em si um tijolo para o todo, cada indigente elevado à qualidade humana! Senhores, podem me destinar ao inferno, mas a sensação de “ser humano” é um sentimento que dá acesso ao que há de obscuro no Deus, pois se a mente suprema planejou homens, não é a sua criação que vejo sangrar as páginas dos jornais. Mesmo sob a tutela cruel de cérbero eu serei feliz. Eis porque não deixo de gastar minhas discretas armas em favor da humanização. Tudo consiste, como num outro artigo escrevi, em “captar a essência da universalidade e dispô-la aos menos instruídos; conceder, na execução do poder, a formação digna aos cidadãos. Isto é ainda sonho por sonhar dias e dias. É luta em que devemos envolver todo o esforço racional, e a fração de nossa militância que se consegue manter ainda autônoma dentro de um sistema político tão viciado”". 28.06.2008

O Direito, em sua forma mais ampla, é nada mais que a expressão da moralidade de um povo. Por isso há sistemas distintos, diferentes escolas, e estados-nação mais ou menos dependentes do formalismo legal positivado. Entender o Direito, coisa necessária não apenas a estudiosos, passa inescusavelmente por conhecer a comunidade humana que o moldou. “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro, é obra, nesse sentido, indispensável. Somente dando ao estudo jurídico o tempero da contextualização histórica-cultural se terá o Direito brasileiro investido do mais nobre humanismo, e comprometido com a justiça social. O tratamento elitista das ciências jurídicas gera um caótico ambiente de deslegitimação popular, em que, como se noticia todos os dias, “a lei não pega”… 16.02.2008

Um dia o pescoço de qualquer um de nós estará nessas “forcas” – hoje consideradas alheias. Então é necessário lutar imediatamente contra as forcas.

Mesmo a língua comum é traduzida para as formas particulares de entender.

Todos nós que hoje estamos ligados a um cargo búblico temos uma pequena mas significativa chanse de contribuir para mudar uma situação que sempre criticamos. É preciso respeitar o povo como cidadãos que os queremos, ou, no mínimo, como contrinuintes que são. Aqui em Búzios, particurlamente, gastamos um terço de nossa vida nas atividades da administração pública, portanto, devemos agir considerando que o trabalho é continuidade de nossa pessoa, onde a gentileza deve se sobressair como característica de uma boa educação familiar.

Ninguém mata uma pessoa só. Mesmo o monstro que logre essa proeza de merecer a morte faz respingar o luto da decepção nas faces da sociedade, incapaz e cruel ao ponto de negar humanidade a alguns. Pasmem, mas a humanidade morre um pouco com os que “merecem” a morte, e se vivifica com a morte imerecida de seus gênios e mártires. A morte é um fenômeno coletivo. Sempre coletivo.

Na vida há valores que se sobrepõem à noção de número. A ética é o recurso moral que nos permite estimá-los. “Lealdade”, “senso de justiça” e “responsabilidade ecológica” são algumas dessas riquezas (subjetivas). Indivíduos a quem não se propicia a formação humanística adequada terão dificuldade em mensurá-los.

Como se terá idéia precisa a respeito do que não se experimentou? Assim, quaisquer doutrinas sociais, sejam religiosas ou filosóficas, que neguem o humanismo salutar, são anti-humanas. Tão gravemente se formam mentes humanas aquém das necessidades sociais, que o próprio discurso ecológico cai ao vazio árido da insensibilidade. Como promover
a necessidade de preservação dos ambientes naturais, se o recente estágio industrial e hurbanizatório tende a dissociar o homem da natureza? Considere-se ainda, que o consumismo, desde a infância estimulado, e combinado ao surto de doutrinas e práticas “utilitaristas” em voga na “cultura de massa”, concorre para a “obsolescer” a natureza.

Ainda como crítica ao “utilitarismo”, vale considerar que a formação humana, refém das equívocas políticas sociais do governo, tem se restringido (quando muito) ao preparo profissional, como se o valor ético da pessoa pudesse ser resumido ao quantum venal de sua produtividade.

Abordando, esse tema na prática:

Dia desses, vinha eu em um ônibus, e estive forçado a auvir um dessas coversas alheias que ferem o nosso senso racional.

“- …Acho que ela não tem que ficar nessa agonia de murmurar e julgar deus… Às vezes a gente pergunta demais! Que mania que a gente tem, né, irmã?! É como diz o ensinamento, numa hora dessa a gente tem não tem de querer saber ‘por quê’ e sim ‘prá quê’. Muitas vezes deus até concede uma coisa que vai ser ruim prá gente, pra gente saber que deus é quem manda na nossa vida…
- …É verdade irmã, tem que perguntar ‘prá quê’!”

Agora pergunto (se ainda posso): não está, nesse diálogo, a morte da racionalidade? Não estão essas almas possessas pelo utilitarismo?

Sob o manto dessa ignorância, o que pode haver de injusto e desumano na miséria, na na pobreza e na destruição ecológica é legitimado e passivamente aceito; por subdoutrinas paulinas, depois “romanizadas”, diluidas num cristianismo decadente, e semeadas no terreno da péssima educação popular, somos conduzidos “como ovelhas ao matadouro”! E, por essa conduta socialmente consolidada, o fim “maior” – a salvação -
justifica os meios, tais quais a passividade, a condescendência, a negligência diante das injustiças…

Se um homem tiver tudo o de que precisa (ou que acredita precisar) a duas braças da mão, será capaz de passar toda vida em uma ilha, imaginado estar em um continente, como as culturas primitivas se concebiam como centro do “universo”.

Os progressistas-a-qualquer-custo reagirão alegando o “sucesso” produtivo da América. Mas o eixo da problemática se situa exatamente no progresso material desprovido da alma ética, que entre seus efeitos traz a predação humana e a exploração exaustiva do meio ambiente.

Será que Weber esteve o tempo todo errado, quando atribuiu ao protestantismo parte substancial do ethos capitalista ocidental? Será que não há uma ponta de precisão no pensamento de Huxley, quando abrange o “trasncendentalismo” da religião ocidental como possível causa de nossa débil civilidade? Ou ainda: os humanistas erraram ao diagnosticar o deus-semítico como um ponto-de-fuga psicológico, o perdoador ostensivo, no qual se acovarda a consciência geral?

É tão grave o caso, e deixo claro que supera o tema religioso, que mesmo comunidades postas fora da influência religiosa direta podem tender àquele “passivismo”. Isso mostra, quando aqui se fala em “ethos”, que já se espraia o efeito analisado, para outros “setores” da psicologia social.

O que houve de errado com um judaísmo arraigado no talião, no “olho por olho, dente por dente”, que reagiu a tantos impérios? Que houve com a divindade castigadora da indolência piedosa de seus comandantes de guerra? É demais supor que essa passificação foi imposta pelo imperialismo romano? É difícil aos prosélitos-teólogos enxergar nesse ethos ocidental as marcas da romanização do cristianismo?

A raíz dos impérios está plantada nos túmulos da racionalidade. Tudo o que se direciona às massas vai dissimulado sob a capa do utilitarismo. Nem que se tenha de criar a “necessidade”, para forçar o desencalhe do estoque de inutilidades. 08.07.2008

Não é necessária nehuma criatividade herege para constatar, no Pentateuco (bíblia), as ordens da divindade semita, para que moisés e os sequentes generais não poupassem “os inimigos do povo de Deus”. Nem se precisa ir longe para ver outras atrocidades em nome de certas crenças fundadas na “vingança” divina, como as cruzadas e outros genocídios e perseguições.
No entanto, Hoje se alega a necessidade de relativização, porque, dizem, “aqueles atos tinham cabimento no contexto cultural da época…”
Leva-nos a questionar: isso seria prova de que temos um deus “moldado” à forma do pensamento semita? Por que um deus dito “unisciente” e “eterno” precisaria ter suas ações analisadas segundo uma lógica de relativismo histórico?

A teologia que tenta se impor como ciência, no sentido clássico, cai, incaltamente, no abismo desses absurdos. À teologia dos pátios basta a fé; a este emaranhado historicamente alienado que tentam ministrar em ambiente acadêmico resta a linha “desconstrutivista: para se encaixar a divindade semita nos moldes da racionalidade positivista, é preciso renegar a história e ir contra a tradição e a cultura.

Aliás, o desprezo pela tradição é o traço que une o fundamentalismo de direita, o comunismo ortodoxo e a fração eclesiástica imiscuida no poder. 07.07.2008

O português do brasil tende aos vocábulos curtos, e a solução, quando são longas as palavras, é colocar-lhes dobradiças rítmicas. Muitas vezes se diz nesse “cantando” o que em fala não se diria, pela expressividade pulsiva da língua. 16.05.2008

Algumas pessoas precisarão ser mãe ou pai para entender a reação de alguém que tem um remédio negado, em uma repartição pública, para seu filho doente crônico. Tende-se a condenar a titude materna de desespero, quando o problema é “dos outros”. Mesmo assim acredito qua a dor alheia possa ser “percebida” com nossa própria reflexão e sensibilidade, e que esse senso de injustiça pode nos levar a agir, mesmo sutilmente, pela mudança. Precisamos ser mais humanos, ou no mínimo sensatos. (hoje vi uma jovem senhora quebrar a porta do hospital, pelas razões acima). 16/02/2008

Só o completo desvencilhamento do mundo dá fecundidade ao humor puro, embebido na grande tragédia humana. Wood Alen é dos especialistas do humor produzido na intimidade de uma ilha humana. Eu entendo os seus críticos: esse tipo de comicidade é coisa séria, nem sempre acaba em gargalhadas.

Eu nunca saio ileso de um diálogo.

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